Sorte grande

São 4 da manhã, estás a dormir ao meu lado e dou por mim sabe-se lá porquê a olhar para ti como quem olha para o que de mais bonito alguma vez havia visto. Sinto que sou capaz de observar-te para sempre e obrigado por isso. Por seres tu. Por me fazeres sentir assim. Ainda hoje não sei como o fizeste, mas ainda bem que assim foi. Ainda bem que surgiste na minha vida desta forma e me fizeste ver que, afinal, há quem valha a pena. Afinal, o amor existe. E as relações (quase) perfeitas também. Quando te encontrei não te procurava. Mas com o tempo descobri em ti tudo aquilo que sempre quis. E de que sempre precisei. Ainda que sem saber como nem porquê, despertaste tudo o que de bom existia dentro de mim. Comecei a acreditar que afinal merecia mundos e fundos e que isso era tão simples de ter. Comecei a rir por tudo e por nada, a dançar e a cantar no meio da rua, a acordar sem aquele mau feitio, e a ter mais paciência. Enquanto aos olhos dos outros estava a ficar irreconhecível, aos meus começava a perceber o quanto estava a ficar apaixonada. E a entender muitos porquês. O porquê de correr para os teus braços de cada vez que te via, ainda que não te visse há só e apenas um dia. O porquê de sentir-me a morrer de saudades tuas, ainda que tivesse acabado de sair de perto de ti. E obrigado uma vez mais. Por não me teres deixado ir embora quando estava mais assustada do que nunca. Por teres sido capaz de fazer-me perceber que é possível estar tudo bem, ainda que sinta que o mundo está prestes a cair em cima de mim. Porque, desde que te tenha por perto a dar-me a mão e a sussurrar-me ao ouvido que "vai ficar tudo bem", não consigo não sorrir. Estiveste comigo em alguns dos piores momentos da minha vida. E deste-me alguns dos melhores. E se não tivesses sido tu não sei o que teria sido de mim. Sempre que me senti a ir abaixo reergueste-me e impediste-me de bater no fundo. Sempre que me senti a ficar sem alternativas foste tu quem as procurou (e encontrou). E é por isto tudo que te amo tanto. E que neste momento não há nada que me assuste mais do que perder a minha estabilidade, e isso é perder-te a ti. É perder a tua avó a dar-me um beijo na testa de cada vez que adormeço no sofá da sala da tua casa. É perder as vezes em que fico do lado da tua mãe a discutir contigo. É perder os gozos do teu pai com a minha altura. É perder os teus almoços e jantares de família em que falo mais do que tu. É perder todos os beijinhos e abraços da tua irmã. É perder os abraços dos meus segundos avós de quem no início morria de vergonha mas que depressa me deixaram à vontade ao dizer-me o quanto gostavam de mim por tu estares tão feliz. É perder a tua irmã a enviar-me post-its e a fazer prendas para o Santiago. É perder o chão. Nunca questionei ao tempo quanto tempo temos mas até todo o tempo me parece pouco para estar do teu lado. És aquele que me faz distinguir o certo do errado. Aquele que me faz ir ao céu e voltar com tantos sonhos que tem em conjunto comigo e, apesar disso, me mantém com os pés assentes na terra. Fizeste-me ver que é possível adormecer e acordar a sorrir todos os dias, até naqueles que não estás do meu lado. Que é possível desejar voltar a perder aviões e ficar perdida em novas cidades. Que até é possível querer voltar a pagar 2 euros por uma garrafa de água, só para podermos voltar àqueles dias. Porque nós somos (e havemos de ser sempre) o que fomos naquelas ruas de Espanha. Os beijos roubados. Os abraços apertados. O andar de mãos dadas. A cumplicidade e a tranquilidade. O descanso e o conforto. O "nascemos para isto", e não é que estamos certos?

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