# Carta para ti III

Já não me és totalmente estranha, já sei que te chamas Maria Inês, e eu nunca mais te escrevi, peço desculpa logo a ti que estás sempre disposta a ouvir-me. A minha vida não tem sido fácil.. afinal ela nunca o é, não é verdade? Mas a minha tem estado cada vez pior, sem ninguém se aperceber disso, eu cada vez  me sinto mais perdida, sozinha e abandonada. Nunca pensei vir a sentir-me assim, abandonada, nem nunca esperei utilizar tal palavra para me descrever, mas é assim que eu tenho estado, abandonada no meu próprio mundo. Tenho deixado cair tudo em cima de mim - mesmo aquilo que eu achei que nunca desabaria - e isso doí. Doí muito. E como sempre fui mascarada de forte. De menina que está sempre bem e isso não é verdade e a única pessoa que conseguia ver para além da mascara, mascarou-me de falsas esperanças.  E como sempre acabei por me desiludir com elas. É isto que me faz tanto mal, é tão isto o que me deixa no chão e tão por baixo dos outros. É tão isto o que me faz chorar muitas das noites. Tenho o coração pequenino, mais do que sempre foi. E ele grita de dor, de mágoa, de desilusão. E eu pergunto-te Maria Inês, como se concerta um coração que foi destruído por quem o completou? Como se consegue deixar alguém que sempre nos prometeu que nunca nos deixaria? Como se consegue seguir em frente, sem olhar para trás? Como nos despedimos de alguém cuja vida já foi idealizada ao nosso lado? Responde-me, Maria Inês. Como sorrir em momentos como estes? Como sorrir perante um mar de (des)ilusões? Como seguir em frente com tantas pessoas a puxarem-me para trás? Como dizer "esta tudo bem" a quem sabe que não está? Estou perdida dentro do meu coração. Perdida no sentido físico da palavra. Mesmo perdida, sem saber onde estou, com quem estou ou quem tenho comigo. Preciso de ir sem pensar em voltar.. Preciso de desaparecer sem que saibam para onde foi o meu nome.. Preciso de chorar por tudo isto, mais do que aquilo que já chorei.. Preciso de me encontrar ou de alguém que me encontre. Oh, preciso tanto de começar a viver sem estar no chão.

Sem comentários:

Enviar um comentário