amor


O amor ás vezes é bonito. É bonito à noite, enquanto dorme. Quando acende o candeeiro do coração a meio da noite e alguém o apaga sem tu dares conta. É bonito quando estás no café rodeada de vidros e vês as pessoas lá fora a correrem de guarda chuva na mão. Os carros a passarem e alguém a fumar na mesa ao lado da tua. O amor é bonito. Por ser ele próprio, porque sabe sê-lo quando ás vezes mais ninguém o faz ser. Porque ilumina casas escuras. Porque nos faz doer a barriga. Sente-se quando acordas e por acaso sorris. O amor é bonito porque ele sabe chorar e mesmo assim não deixa de ser ele próprio. E então ai nós choramos com ele e eu atrevo-me a fazer-lhe uma vénia. O amor merece. Por tudo o que ele não deixa ir abaixo e embora e por todos os sorrisos que ele já me deu. E de seguida me tirou. Não deixa ir embora as pessoas e prende-as como os pássaros inocentes se prendem nas redes. Ás vezes prende-se sozinho. Outras solta-se. E depois foge. Mas volta, volta para juntar corações com almas e lábios com lábios. Volta porque não sabe não voltar e vai porque não sabe ficar. Quando fica faz doer. E quando dói corrói. As almas perdem as asas brancas e os pássaros cantam outras melodias. O vento faz-nos companhia dia após dia. O comboio leva as pessoas que não voltam e os sentimentos ficam na estação. Mas levam-nos metade do olhar e procuramos novos cafés. O frio volta e um casaco de coração não chega. Então eu fumo. E o cheiro nos meus dedos me fascina. E as lâmpadas da cidade apagam-se mais que nunca ao pé da Lua. O amor vai. E mesmo assim fica. Sem nunca sabermos como. Sem lhe tocarmos. Mas fica. Ás vezes fica numa fotografia, ou então numa música que passa na rádio ao fim da tarde. Fica noutro dia de chuva em que nos esquecemos de acordar. Vai quando passamos uma noite sem chorar e outra sem ver o vento que nos magoa. Mas óh o amor é bonito. O amor será sempre bonito nas alma que têm a quem dar a mão.

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