present
Ninguém sabe, mas houve noites em que morri. Noites que de pouco dolorosas não tinham nada. Morri, e levei comigo tudo o que me fazia mal na esperança que isso não voltasse mais. Ninguém sabe, mas houve manhãs em que eu própria tive que me salvar, sozinha. Houve um tempo que eu não era eu. Que era dor, sem alma nem coração. Porque, nós nem sempre somos um bom lugar para se estar, e eu sou de longe um bom lugar para eu própria estar. Dói viver demais. Dói aguentar quando se quer desistir. Dói ter que conter tudo quando se quer explodir. Ninguém sabe, mas cair e levantar também cansa. E de tanto cair, talvez já nem saiba como me levantar. Porque ir e voltar faz-nos morrer. E ninguém sabe, mas há pessoas que não se esquecem. As erradas, talvez. Ou as certas que deixámos escapar, quando queríamos sentir o mundo e o mundo, óh o mundo eram elas mesmo. Ninguém sabe, mas houve um tempo em que plantar sorrisos era como plantar dor e para regá-la bastava olhar-me ao espelho, porque ele próprio troçava de mim. E, sinceramente, não sei o que foi pior: se me sentir lixo ou ser eu o próprio lixo. Ninguém sabe, mas por detrás da máscara não existe mais nada do que eu, apenas eu. Não existe mais do que um coração que já esteve partido e que agora está a ser remendado. Ninguém sabe, nem ninguém nunca saberá, pois nunca ninguém se interessou em saber.
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