Era mesmo de ti que eu hoje precisava, era mesmo contigo com quem eu tinha de falar. Não sei qual é o teu sexo, que idade tens, muito menos onde moras. Mas sei que me estás a ler, e que só por isso, já vale todas as palavras que escrevi e continuo a escrever. Às vezes é mais fácil falar assim, para quem não sabemos quem é. E tu não sabes, mas eu digo-te agora, que sou complicada, que é difícil para mim abrir-me ao ponto de contar o que se passa dentro do meu coração. É complicado quando nos conhecem ao ponto de fazer julgamentos, ainda que não nos digam na cara, há sempre quem pense com o coração. E tu não és assim, porque me estás a ler e talvez estejas disposto a continuar a fazê-lo até ao fim. E por isso deixa-me partilhar um segredo contigo: já gosto de ti. Precisava de ti sem saber que precisava. Percebi isso quando pensei em escrever-te a ti, mesmo que saiba que não exista esse alguém. Com outra pessoa, noutro local, a até noutra cidade talvez não conseguisse. Mas hoje estou a conseguir, e por enquanto já te agradeço por isso. Talvez tenha de entender que só por eu dar de mim aos outros não tenho de receber algo dos outros em troca; ou que as pessoas pensam cada vez mais nelas próprias e esquecem-se dos outros; que se preocupam apenas com as suas desilusões porque lhes faz doer, mas esquecem-se que há dores maiores. Essas que fazem realmente doer, esmagam o corpo, esburacam o coração ao ponto de ele partir-se em estilhaços nas nossas mãos, e o pior disso? Não tem ninguém que o conserte. As outras, se calhar têm esse alguém, e mesmo assim preocupam-se porque lhes dói. Dor é quando nos partem o coração e não temos ninguém que junte os pedaços ao nosso lado; não é parti-lo e ter essa pessoa que o partiu - talvez sem querer- a conserta-lo, a cuidar dele, até que volte ao ponto de partida. E isso incomoda-me, quando choram pela mínima dor sem se preocuparem com a dor dos outros. Sem estenderem um braço a alguém, mas esperarem que uma pessoa o faça a si. As nossas ações não tem de ser baseadas na troca de outras; se as fazemos é porque queremos, não porque esperamos que alguém o faça de volta. Continuo a conversar contigo e tu ouves-me muito atento sem dizer nada, talvez acenando que sim. Não sabes nada de mim, apenas lês o que escrevo, e mesmo assim permaneces sem nada dizer. Começas a confiar em mim, nas minhas palavras, mesmo sem o saberes. E eu estou a dar de mim.. quase sem perceber que há alguém que talvez recolha esse pedaço. E essa pessoa és tu, e se eu soubesse quem és, se soubesse onde moras, como te chamas talvez um dia te batesse à janela e te disse-se: anda dai, vamos beber ou café ou passear pela cidade, porque há algo que ainda não te contei. E tu talvez viesses, talvez me ouvisses e acenasses que sim com a cabeça. E obrigada estranho, ia sentir-me em casa.
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